• Fernando Fontana

Alma de Escritor

Atualizado: 4 de Ago de 2019

Notas de um Velho Tapado Capítulo II


Que maldição terrível é esta de ter alma de escritor, mas não o talento necessário.


Não que eu seja péssimo, não mesmo, já li coisa muito pior na biblioteca e as livrarias estão transbordando de lixo.


Sou um escritor medíocre, por mais cruel que soe a palavra, mas viciado em escrever, e é isso que me consome um pouco todo santo dia.


Depois de alguns copos, refleti que o que me faltou foi dor, dor de verdade.


Os melhores livros que li foram de escritores que passaram fome e frio, dormiram em hotéis de quinta categoria na companhia de baratas, treparam com uma velha gorda em troca de comida e uma garrafa de uísque vagabundo, depois, foram para suas sagradas máquinas de escrever e despejaram tudo no papel, com a paixão típica dos rejeitados.


Quando criança desejei coisas que não podia ter, o dinheiro era curto, os cobradores batiam na porta, mas sempre teve comida na mesa e um teto sobre a cabeça, e eu sinto saudades daquele tempo, então não dá para dizer que foi uma época ruim.


Os anos seguintes foram mais ou menos assim, nada de excepcional ou empolgante, nada para encher as páginas, invisível, irrelevante, uma biografia repleta de capítulos repetidos.


Bukowski odiava com todas as forças os anos em que trabalhou nos Correios, quando ainda não conseguia sobreviver da sua escrita, "tudo começou com um erro" - ele disse - e o erro foi ter se candidatado a uma vaga no serviço público, onde de certa forma se acomodou, aprendeu a viver com um salário no começo do mês, embora nunca tenha deixado de escrever e tempos depois tenha mandado a todos para o inferno.


Estou na mesma situação, mas ao contrário do velho safado, nunca tive culhões para desistir, talvez porque não despreze meu emprego tanto assim, talvez porque eu tenha uma família e contas para pagar.


Minha desculpa favorita, mentira confortável, eles não tem culpa da minha fraqueza. Eu sou o único responsável por ainda estar aqui, carimbo na mão, olho no relógio, contando as horas para a aposentadoria, incapaz de sair pela porta e não voltar mais, amargo.


Tem outros como eu, dá para ver nos seus olhos, mas não admitem.


Sem a dose de sofrimento necessária, sou Bukowski homeopático, inofensivo.


Eu podia inventar, é claro, dizer que dormi em cima do meu próprio vômito, que quase beijei a morte, que a desgraça foi uma constante, mas não seria a mesma coisa e eu não sou muito bom nisso.


Soa falso e o leitor atento percebe a fraude.


Eis aqui uma meia verdade, certa vez, bêbado e em uma discussão idiota com um amigo, sobre algo completamente irrelevante, mas que na hora parecia fundamental, soquei a mesa, porque era a mesa ou a cara dele, e eu escolhi a mesa, já que perderia o amigo, não sou bom de briga e não tenho muitos amigos.


Depois disso, minha mão passou a doer pra cacete, cheguei a pensar que estivesse quebrada, mas não, talvez tenha trincado um osso ou algo assim, nunca fui ao médico para descobrir, só sei que ainda dói, e sempre que me deparo com um escritor bom de verdade, e penso o quanto eu queria escrever daquela forma, bato ela contra alguma superfície, assim a dor física distrai o cérebro da dor que realmente importa.


Olha só para isso, um texto encharcado de autopiedade.


Paciência, porque escrever ainda é melhor do que esperar a morte em um banco de praça, ou melhor, não escrever é a morte em vida.

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Este velho não possui ensino superior, não acumulou conhecimento ou sabedoria que lhe credencie a dar conselhos; escreve não porque seja bom escritor ou porque queira, mas porque precisa, porque é o vício mais difícil de largar.




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