• Fernando Fontana

Isamu deve Morrer

Atualizado: 2 de Nov de 2019

Parte 1: O Ronin Bêbado


Arte por Wagner Kurts: @wagnerkurtsart

– Senhorita – disse a jovem gueixa – posso entrar?


– Você já entrou, não entrou, Yoko? O que houve dessa vez? – Perguntou Keiko, sem retirar os olhos dos papéis que continham o faturamento de seu estabelecimento.


– É um homem, está bêbado, bastante alterado e incomodando os fregueses.


– Samurai?


– Carrega espada, mas não o brasão de um Clã.


– Outro Ronin; você sabe o que fazer, procure a guarda, deixe que eles o levem.


– Ele diz que veio para matar Isamu.


– Ronin e desesperado para morrer, mais um motivo para chamar a guarda. O que está esperando, menina?


– Sim, Senhorita Keiko, e eu já teria chamado, mas ele também diz ser seu amigo.


– Não preciso de amigos assim. O tolo tem um nome?


– Ryotaro.


Keiko levantou-se, o nome trouxe lembranças de um passado não tão distante; Ryotaro, filho de Sakai Hidetaka, guerreiro morto após tola discussão. Ela passou por Yoko e seguiu para o salão principal da Casa de Chá, onde o encontrou agitado, esbarrando nos móveis, bebendo o último gole de uma garrafa de saquê, a lâmina de sua katana apoiada sobre o ombro direito. Duas gueixas tentavam acalmá-lo sem sucesso, enquanto alguns clientes observavam a cena com expressão de desagrado.


– Ah, vocês estão com medo de que, hein? Acham que o todo poderoso Isamu tem ouvidos por toda parte? Acham que ele é imbatível? Acham que ele é o maldito DEUS DA MORTE REENCARNADO? – Em um gesto dramático, atirou a garrafa vazia no chão, quebrando-a – Pois vou provar para vocês – apontou o dedo para os clientes – para todos vocês, porque amanhã, vou despachar Isamu para junto de seus ancestrais.

– Ryotaro – seu nome foi pronunciado pela voz suave de Keiko e fez com que ele se voltasse para enxerga-la; pele branca como a neve, lábios vermelhos sangue, cabelos negros penteados com perfeição, trajando quimono azul e branco com dragões dourados.


– Keiko, minha querida e doce Keiko, senti tantas saudades.


– O sentimento, asseguro, é recíproco, mas, por favor, queira me acompanhar até um local mais reservado, onde poderemos conversar.


– Esse seu sorriso, digo que ele seria capaz de iluminar as trevas do coração mais sombrio, escreverei um poema em sua homenagem.


– Fico feliz em saber que ainda escreve seus poemas, sempre foi bom com as palavras.


– Claro, mas no momento está difícil falar, minha garganta está seca, gostaria de um pouco mais de saquê.


– Creio que já bebeu demais.


– Então até você deu para me dizer o quanto posso ou não posso beber?


– Devo lembra-lo, Ryotaro, que esta é minha casa e que está sendo desrespeitoso, o que atribuo à bebida. Se quer conversar, terá que se ser em outro lugar, por isso, mais uma vez, lhe peço, venha comigo – Keiko apontou a direção do corredor – ou terei que pedir que se retire.

O Ronin pensou por um instante, embainhou a katana, e, por fim, cedeu a razão – Perdoe minha indelicadeza, vamos, prometo me comportar.


Assim que entraram no aposento, Keiko fechou a porta.

– Por que retornou, Ryotaro?


– E preciso de um motivo? – Ele coçou a barba por fazer – falando assim, parece que não está feliz em me ver.


– Não precisa de motivo, o que precisa é esquecer essa ideia tola de matar Isamu.


– Nesse caso, terei que desapontá-la, vim precisamente para isso.


– Sabe o que está dizendo? Ele é o capitão da guarda do Castelo Okada e homem de confiança do Daimio. Terá sorte se em breve samurais não irromperem por aquela porta para te arrastar até uma cela onde provavelmente mofará pelo resto de seus dias. Muita gente escutou o que você disse no salão.


– Bom, muito bom, não quero manter segredo, deixe que ele saiba o destino que o aguarda; lutaremos até a morte.


– Será uma morte rápida, lhe asseguro.


– A dele, você quer dizer.


Keiko não respondeu, mas seu olhar bastou.


– O QUE? Acha que não sou capaz de derrota-lo? – Perguntou Ryotaro com o dedo em riste.


– Não pode me culpar por dizer a verdade. Seis meses atrás, na batalha do Vale Prateado, Isamu enfrentou um dos campeões do Clã Kumazawa; dizem que ele o matou em apenas cinco movimentos. Cinco movimentos, e muitos confirmam a história, somente Okada Ichiro, o atual Samurai de Jade, o supera em combate. Essa é uma luta que você não pode vencer.

– Ichiro, também o odeio, não tanto quanto Isamu, mas odeio. Fiquei surpreso ao saber que foi Kasuo e não ele, que se tornou Daimio.


– Você escolhe as pessoas erradas para odiar. Tivemos muita sorte, meu antigo mestre, Kimura, conseguiu convencer Ichiro a segui-lo e tornar-se samurai da guarda pessoal do Imperador. Kasuo é melhor Daimio, mais sábio e tolerante.


– A guarda pessoal é um enfeite de luxo, ninguém se aproxima o suficiente para ameaçar o Imperador. Sobre Kasuo, nada tenho contra ele.

– Já parou para pensar que, talvez, a razão pela qual ninguém se aproxima o suficiente para ameaçar o Imperador, seja justamente a sua Guarda Pessoal? Escute, seu pai – mudando de assunto, ela colocou delicadamente a mão sobre o ombro do Ronin – era um bom homem, merecia destino melhor, mas isso não muda o fato de que o caminho que está trilhando o levará para a morte certa. É o mesmo que cometer seppuku.


– Você me subestima, Keiko – ele afastou a mão da gueixa – acha que sou assim tão tolo? Acha que fiquei parado todo esse tempo? Eu treinei, não sou mais o mesmo que você conheceu.


– Ainda que tenha treinado, você ficou fora quanto tempo? Um ano, se muito, não é o suficiente.


– Pois eu lhe digo que é mais do que o suficiente, e que não vim parar morrer, mas para matar.


– Terá que me desculpar por não acreditar em tal afirmação.

– Muito bem, que seja, mais uma vez peço desculpas pelo meu comportamento, agora, se me dá licença, vou atrás de mais saquê.


– Espere – ela lhe barrou o caminho com graça e agilidade – não vá.


– Você ainda se move como uma tigresa, mas como eu disse, minha garganta está seca.


– Eu trago o seu saquê; se sair por esta porta, acabará morto antes do amanhecer.


– Não é necessário, sei me cuidar e não quero lhe causar problemas.


– Eu insisto.


– Você ainda não aprendeu a receber um não, não é mesmo?


– Não, assim como você.

Ela saiu do aposento e poucos minutos depois, Yoko entrou com uma bandeja contendo garrafa e um copo – com os cumprimentos da Senhorita Keiko, nobre Ryotaro.


O Ronin sorriu enquanto enchia o copo – nobre, está aí palavra que não combina comigo, quer um pouco, jovem?


– Oh, não, obrigado, devo retornar aos meus afazeres. Se precisar, basta chamar – disse Yoko antes de se retirar.


Ryotaro olhou para a bebida, como esperado, ninguém acreditava que pudesse vencer um combate justo contra Isamu. Talvez estejam todos certos – pensou enquanto entornava o saquê – mas o que importa? A vida sem honra não tem significado, e uma morte em combate está longe de ser o pior dos destinos.


Se perdeu em pensamentos, brindou à esperança dos tolos e esvaziou a garrafa, apagando no chão, ainda agarrado ao copo, como se sua vida dependesse disso.


Não ouviu quando abriram a porta e nem quando o chamaram, acordou sobressaltado com um chute entre as costelas – EI – gritou o samurai trajando as cores da casa Okada – acorde seu imprestável.


A dor foi amortecida pelo efeito da bebida, o deixando ainda em estado de torpor.

– O que? O que foi? – Perguntou semiconsciente.


– Olhe só para este inútil, e ainda tem a petulância de dizer que matará um samurai. NÃO OUVIU, ANDE LOGO, VOCÊ ESTÁ PRESO! – Disse o segundo dos samurais, aplicando-lhe chute ainda mais forte.

Ryotaro levantou-se rápido demais para quem havia esgotado uma garrafa de saquê, e quase foi ao chão novamente. Cambaleando, procurou por sua katana, sem encontrá-la.


– É isso que quer? – O primeiro dos samurais mostrou a Katana de Ryotaro.


– COVARDES, entreguem minha arma para que eu possa me defender – falou com voz pastosa.


O segundo dos samurais rapidamente sacou sua katana e a colocou sobre o pescoço de Ryotaro, que ficou acuado contra a parede – Com quem acha que está falando animal? SOMOS SAMURAIS DA CASA OKADA! Repita o que disse e arranco sua cabeça com um só golpe.


– Você é rápido – disse Ryotaro – talvez queira testar sua habilidade contra um oponente armado.


– Honrados samurais – a voz de Keiko veio da porta – humildemente suplico para que recordem sua promessa de não derramar sangue nesta casa.


– Se derramar o sangue deste imprestável é o que lhe incomoda, podemos faze-lo do lado de fora, Senhorita Keiko – disse o segundo dos samurais, pressionado ainda mais a katana e arrancando um filete de sangue da garganta de Ryotaro, que engoliu em seco.


– Não, nem uma gota de sangue, desejo interceder pelo destino do Ronin junto ao seu senhor. Peço que poupem sua vida e o levem preso para que o Daimio julgue qual deve ser sua punição.


Os samurais entreolharam-se por um momento, logo depois, o segundo deles abaixou sua katana – tem muita sorte, se não fosse por ela, sua ofensa lhe custaria a vida.


Sem alternativa, embriagado, desarmado e com as mãos amarradas, o Ronin não reagiu, há um limite para a estupidez decorrente da embriaguez; deixou-se prender e sem dizer uma única palavra foi levado para o caminho que leva até o imponente Castelo Okada, onde foi jogado sozinho em uma pequena e úmida cela.


Recostou-se na parede e antes de adormecer com um estranho sorriso nos lábios, pensou: ainda não decidi se sou muito inteligente ou muito estúpido.


Continua na Parte 2: Isamu Deve Morrer Parte 2

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