• Fernando Fontana

Isamu deve Morrer

Parte Final: A Vingança do Ronin

Para ler a Parte 1: O Ronin Bêbado

Para ler a Parte 2: A Gueixa e o Ronin


Arte por Wagner Kurts: @wagnerkurtsart

No dia seguinte, bem antes do Sol raiar, Ryotaro encontrou-se com Keiko do lado de fora da Casa de Chá. Seu rosto, inchado, ainda exibia as marcas das pancadas recebidas no dia anterior, o quimono encontrava-se imundo e rasgado na base, como se houvesse saído de grande batalha, e seu hálito fedia a saquê.

– Em nome do Imperador, o que foi que aconteceu com você – ela perguntou.

– Um pequeno contratempo, mas já solucionado – ele respondeu, desviando o olhar e percebendo a presença de três samurais da Casa Okada a uma distância aproximada de cinquenta metros – pelo visto temos companhia.

– São leais à Isamu, vieram para ter certeza de que não fugirá. Tolice, não precisavam fazer isso.


– Sou honrado!


– É estúpido – Keiko retrucou.

– Você continua com raiva.


– Olhe para você, como não vou ficar com raiva?


– Não vou te provocar, tenho mais medo de você do que de Isamu. Podemos ir?


– Se está com tanta pressa assim para encontrar a morte, pode ir sozinho – ela cruzou os braços.

– Ok, não posso obriga-la. Adeus, Keiko, obrigado por tudo - ele seguiu mais uma vez para o Castelo Okada, cambaleando, arrastando os pés, o caminhar de um bêbado. Mal deus os primeiros passos e Keiko já estava ao seu lado.


– Já mudou de ideia? – Ryotaro perguntou com um sorriso no rosto.


– Tentarei convencer o Daimio de que você não está em condições de lutar.


– Ele não adiará a luta.


– Eu sei.


– Se sabe, então por que...


– Quer calar a boca, Ryotaro, só me deixa acompanha-lo, pode ser?

O Ronin calou-se e seguiu acompanhada por Keiko até enxergar os portões do Castelo Okada, justamente quando o Sol começava a iluminá-los.


Cercado por seus mais fiéis samurais, estava o Daimio, assim como o sacerdote e o Sumotori, e alguns metros à sua frente, esperando o adversário, estava Isamu, o oposto de Ryotaro, trajando seu melhor quimono, impecável, sem que um arranhão ou grão de poeira maculasse sua imponente figura.


– Ryotaro – disse o Daimio – você veio, como prometido, mas não esperava vê-lo em tão deploráveis condições.

– Humildemente discordo, nobre Daimio, nunca estive melhor – respondeu Ryotaro.

– É o que você diz, mas sua voz e aparência negam.


– Meu senhor – disse Keiko – ele está bêbado, talvez pudéssemos adiar novamente a luta.


– NÃO! – Exclamou Isamu – a luta foi marcada para hoje e deve acontecer.


Mais uma vez cambaleando, quase caindo entre os poucos passos necessários para cobrir a distância entre ele e samurai, o Ronin avançou até ficar frente a frente com Isamu – Não vou a lugar algum, lutamos hoje.


– Seu hálito fede – disse Isamu – você é uma vergonha para sua família.


– Senhorita Keiko, queira se aproximar – disse o Daimio – não vejo qualquer motivo para adiar a luta.

Entre os samurais ao redor, não havia espaço para dúvida, em plena forma, o Ronin teria chances mínimas, bêbado, estava condenado. As apostas não eram sobre quem venceria, mas em quantos movimentos Isamu derrotaria Ryotaro.


– Isamu, está preparado? – Perguntou o Daimio.


– Sim – o samurai respondeu sorrindo e com a mão sobre e empunhadura de sua katana.


– Ryotaro?


– Sim – respondeu o Ronin, fechando os olhos por um momento e os abrindo logo depois.


Isamu era veterano de muitas batalhas, aprendera a reconhecer o olhar de um assassino, e no breve instante que antecedeu a ordem do Daimio, percebeu que o homem à sua frente agora o tinha. Também notou a mudança de sua postura, firmou os pés, alterou sua base, adquiriu equilíbrio e agarrou com firmeza a Katana.

O sorriso e a confiança desapareceram – mas o que...


A frase dita em tom baixo e não concluída foi interrompida pela ordem do Daimio:

– LUTEM!


A cena seria comentada por gerações; os presentes mal conseguiram observar o movimento da Katana de Ryotaro, que a sacou em velocidade quase sobre-humana, atingindo Isamu no ventre, derramando uma grande quantidade de sangue e vísceras, fazendo com que o samurai caísse de joelhos, mortalmente ferido.


Antes mesmo que os joelhos do capitão da guarda atingissem o solo, a Katana de Ryotaro já estava de volta a sua bainha, concluindo um único e preciso movimento.


Isamu sequer chegou a sacar sua espada.


– Um movimento – disse Kentaro sem poder acreditar – ele matou Isamu com um único movimento.


– Battoujutsu! – Exclamou o Daimio.

– O que? O que disse? – Perguntou uma senhorita Keiko de olhos arregalados diante da cena que acabara de assistir.


– Battoujutsu, a técnica de um único golpe – respondeu o Daimio.


– Você...você me enganou – disse um agonizante Isamu.


– Nem mesmo treinando esse golpe por 300 dias seguidos, eu sabia se seria rápido o suficiente para derrota-lo, mas sua arrogância facilitou tudo. Vá para o inferno, Hasegawa Isamu, lá é seu lugar.

Isamu não chegou a ouvir o final da frase, morreu antes.


– Congratulações, Ryotaro, foi um golpe perfeito – disse o Daimio.


– Agradeço o elogio, nobre Daimio.


– Um homem bêbado não conseguiria desferi-lo.


– Não, não conseguiria.


– Então, estava fingindo o tempo todo – insistiu o Daimio.


– Não é ilegal, é? – Perguntou Ryotaro.


– Não, não é, mas também não é o tipo de conduta normalmente aceita por samurais, e você não é Ronin, é samurai. Seu mestre é o irmão de Yamaguchi Nobu, Yamaguchi Eiji, mestre em Battoujutsu, não é mesmo?


– Sim, foi Eiji que me treinou e me deu a espada em troca de minha servidão.


– Ele deveria estar certo de sua vitória.


– Sim, ele estava. Estou livre para ir?


– Sendo samurai do Clã Yamaguchi, deveria ter vindo até mim e se apresentado como tal, afinal, é um Clã aliado e fiel ao Imperador, é o que manda a tradição.


– Compreendo que errei, qual deve ser minha punição?

– Quero que Eiji, seu mestre, me envie um pedido de desculpas, isso bastará. Agora, parta, nenhum samurai minha casa o importunará.


Ryotaro se inclinou em sinal de respeito e partiu, acompanhado por Keiko.


Ele esperou até não estarem mais visíveis pelo Daimio e seus samurais – Você continua com raiva.


– E como eu deveria estar? – Perguntou Keiko – você me enganou, fez eu pensar que morreria.


– Eu disse que tinha um plano.


– Você não disse qual, eu pensei que o desejo de vingança havia roubado sua sanidade.


– Eu não sabia se funcionaria, não era justo lhe dar falsas esperanças, além disso, quanto menos gente soubesse o que eu pretendia, maior a chance de funcionar.


– E agora, o que você vai fazer?


– Vou até meu mestre, devo cumprir minha promessa.


– Você vai voltar.


– Não sei, tudo depende dos planos de Eiji.


– Não foi uma pergunta, eu sei que irá voltar. Você pode não ser mais samurai e ter um novo mestre, mas seu destino e o meu estão entrelaçados, não há como escapar.


– Eu não quero escapar – ele parou de andar e olhou nos olhos de Keiko.


Seus corpos se juntaram, formando uma única silhueta, beijaram-se, e pela primeira vez em mais de um ano, Ryotaro estava em paz.


FIM

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