• Fernando Fontana

Justiceiro de Garth Ennis

A Essência do Personagem










Garth Ennis foi o cara que melhor compreendeu a essência do Justiceiro, e sua fase no comando do personagem até hoje não foi superada.


Quando falamos de Frank Castle, falamos de uma máquina de matar, que tem como único propósito, passar o resto de seus dias em uma guerra perpétua contra o crime, executando sem piedade todos aqueles que ele julga culpados, aguardando o dia em que uma bala irá encerrar sua missão.


É um personagem feito sob medida para Ennis, que anteriormente já havia demonstrado a qualidade de seus roteiros, humor ácido e uma habilidade ímpar para retratar violência em níveis absurdos, como visto nas séries Preacher e Hellblazer.


Porém, antes de ser retratado com perfeição, seria necessário que as histórias do Justiceiro fossem atiradas na lama.

Justiceiro - Matador Celestial

Certo, comece olhando bem para a imagem ao lado e contemple um exemplo claro do que não se fazer com um personagem.


Em 1998, os roteiristas Christopher Golden e Thomas Sniegoski decidiram que já era hora do Justiceiro morrer.


A Morte do Justiceiro poderia até ser uma excelente história se pararmos para pensar, afinal, é de se esperar que um sujeito que passa a vida matando criminosos sem se importar com as consequências, não tenha um final feliz.


O Justiceiro não foi feito para ter um final feliz!


Acontece que estamos falando da Marvel e dos famigerados anos 90, então, logo após cometer suicídio, Castle é ressuscitado pelo anjo da guarda de sua família (não ria, é sério) que não fez um bom trabalho impedindo a morte de sua esposa e filhos, mas decidiu dar uma segunda chance para o cara que mata dez antes do café da manhã. O Justiceiro retorna dos mortos como um assassino celestial, com a capacidade de evocar armas que podem matar anjos e demônios.

Não dá para ficar pior, certo?


É claro que dá!


Não satisfeitos em desperdiçar papel e tinta com uma desgraça dessas, em 2000, Frank, já de colta (não me pergunte como), é mais uma vez morto, dessa vez, esquartejado por Daken, o filho do Wolverine.


Morte e impostos são certezas apenas aqui, no mundo dos quadrinhos e das péssimas histórias, não, então, o Vampiro Morbius junta todos os pedaços do cadáver de Frank e cria - respire fundo antes de continuar - o Justiceiro Frankenstein. Tem até um trocadilho aí, se você reparar, Frank, Frankenstein, sacou?


Pois é, e ainda perguntam por que a Marvel quase faliu nos anos 90.


O Justiceiro não tem poderes, é um cara armado até os dentes e perturbado até falar chega. Se querem histórias com anjos, demônios, vampiros e confrontos celestiais, vejam se o Doutor Estranho está disponível.

Um Homem que Gosta da Guerra

Garth Ennis entendeu isso como ninguém.


Em Nascido para Matar, ele nos revela Frank Castle na guerra do Vietnã e trata logo de corrigir um erro de interpretação sobre este personagem.


Frank não era um homem normal que pirou depois de ver sua família ser assassinada por mafiosos. Não, ele já gostava da guerra e de matar antes mesmo de retornar para seu lar, já possuía um rígido códio de moral e o exercia matando todos que ele julgasse culpados, incluindo soldados de seu pelotão e até mesmo um general.


Ele apenas trocou uma guerra por outra.


Há um elemento místico inserido na trama, mas muito mais breve e sutil do que visto em história anteriores.


De volta aos Estados Unidos, o autor trata de afastar o Justiceiro dos heróis de colante e visual colorido, a violência e o realismo em que mergulha o personagem simplesmente não combinam com este mundo. O próprio uniforme do justiceiro, com as tradicionais botas e luvas brancas, é modificado, a caveira ainda está lá, para desviar a atenção de atiradores apressados, impedindo que eles mirem na cabeça, mas as roupas são mais sóbrias, com jaqueta ou sobretudo.

Um homem com um único propósito: Matar!

Suas histórias, claro, são desaconselháveis para menores de 18 anos. Seria uma grande bobagem tentar suavizar a violência quando se vai narrar a execução de criminosos com tiros de escopeta.


Sério, o que você acredita que acontece quando projéteis de uma metralhadora M60 atingem um corpo humano? Carne e ossos dilacerados, balões de sangue explodindo, é isso que acontece.


Ennis não economiza em sangue e vísceras, elas estão por toda a parte, misturadas com chumbo e pólvora.


É compreensível que em uma sociedade tomada pelo crime e com as autoridades incapazes de proteger o cidadão, muitos aplaudam as atitudes de Frank, mas é bom lembrar o que o criador do personagem, Gerry Conway, disse em entrevista no começo deste ano:


“Para mim, é perturbador sempre que vejo figuras de autoridade abraçando a iconografia do Justiceiro porque o justiceiro representa uma falha do sistema de Justiça. Ele deve indiciar o colapso da autoridade moral social e a realidade que algumas pessoas não podem depender de instituições como a polícia ou os militares para agir de maneira justa e capaz.”


O justiceiro não é um herói, não é um dos mocinhos, é a falência do estado e da justiça, Garth Ennis sabe disso e entrega a melhor fase do personagem.



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