• Fernando Fontana

O personagem que eu mais odiei

Notas de Um Velho Tapado - Capítulo V

Todo mundo tem aquele personagem que causou ou causa uma repulsa instantânea, ódio, raiva, enfim, que desperta sentimentos ruins.


Seja nos livros, na TV ou no cinema, você sabe do que estou falando, uma morte simples não serve, você quer ver o sujeito sofrer, pagar pelo mal causado, agonizar lentamente em uma poça de sangue, sem um padre que lhe absolva os pecados e encaminhe a alma, se é que ele tem uma.


O meu trabalhava nos Correios.


É, nada impactante como um lorde das trevas ou um rei sádico, só um maldito supervisor dos correios.


Jonstone era seu nome ou sobrenome, não sei ao certo, e ele aparece em um único livro, "Cartas na Rua", de Charles Bukowski, que narra o período em que o escritor trabalhou nos correios dos Estados Unidos.


Agora, por que, diabos, você odeia tanto o cara, deve estar se perguntando.


Bom, a resposta é que, ao contrário de lordes das trevas ou reis sádicos, eu conheci alguns Jonstones em minha vida, um bando de lambe botas cuja única coisa importante é o trabalho e cumprir a maldita meta que algum escroto lá em cima determinou, não importando sobre quem ou o que terão que pisar para conseguir alcançá-la.


Filhos da Puta como Jonstone não enxergam seres-humanos em sua frente, só carne para ser jogada em um moedor, são psicopatas que foram absorvidos pelo sistema, e estão atrás de uma promoção.


Para entender melhor Jonstone você precisa saber a história de George Green, ou G.G. como era conhecido, um carteiro veterano de quase sessenta anos, quarenta deles dedicados aos Correios.


G.G. sempre fazia a mesma rota entregando suas cartas, soprava seu apito e, em um gesto de bondade inocente, entregava doces para as crianças da vizinhança. Um belo dia, uma mãe que não o conhecia, o viu entregando doces para sua filha, ao mesmo tempo em que a elogiava, e acusou o pobre diabo de ser um molestador de crianças.


Todo mundo sabia que George Green não era um molestador, e sim um homem honesto e honrado, Jonstone também sabia, mas ao receber uma ligação da mãe, não deu a mínima, fez o de sempre, abaixou as calças para a cretina. Falava grosso com os subordinados, mas se cagava de medo quando recebia uma reclamação do público, medo de perder seu precioso cargo.


Acabou afastando George Green de sua rota, era o começo do fim.

Tempos depois, G.G. separava as cartas para a entrega; todos os carteiros tinham que fazer isso, mas nem todos conseguiam dentro do prazo estipulado. Em todos os seus anos de serviço, o velho carteiro nunca havia se atrasado ou perdido um turno, porém, naquele dia, Henry Chinaski (o alter ego de Charles Bukowski em seus romances e contos) percebeu que o homem estava fraquejando e que pela primeira vez poderia se atrasar.


E ele teria quase conseguido terminar a tempo, se dois minutos antes do encerramento do turno, Jonstone não aparecesse com um enorme fardo de circulares para ser separado. Qualquer um com um pingo de bom senso saberia que era impossível faze-lo dentro do prazo, e talvez Jonstone tivesse consciência disso, mas o fato é que não dava a mínima.


G.G. desabou, começou a chorar e se retirou para o vestiário, sem condições de continuar a trabalhar. O único a perceber o ocorrido foi Chinaski, que procurou Jonstone e o informou que o carteiro precisava de ajuda, pois estava tremendo e soluçando descontroladamente: "G.G. pifou! E ninguém se importa! Ele está lá em cima chorando! Precisa de ajuda!"


E qual foi a reação do canalha? Ele quis saber quem estava cuidando das correspondências de G.G. Ele quis saber quem estava cuidando das correspondências do Chinaski, ele ligou para outro supervisor pedindo um substituto para George Green, e ele cagou para o fato de um carteiro com quarenta anos de serviços impecáveis ter desmoronado, um homem adulto mergulhado em lágrimas.


Jonstone nunca deu ou daria a mínima para qualquer funcionário dos Correios, para ele eram só peças que podiam ser repostas a qualquer momento, números na porra de uma planilha fria.


Por ter se preocupado com seu colega e abandonado o serviço para ajudá-lo, Chinaski teve sua conduta registrada no relatório do dia como conduta inapropriada.


"Nunca mais voltei a ver o G.G. Ninguém soube o que aconteceu com ele. Ninguém voltou a mencionar o seu nome. O "cara bacana". O homem dedicado. Degolado sobre um fardo de circulares de um supermercado local - com a oferta do dia: uma caixa de sabão em pó de nome pomposo, com o cupom, em qualquer compra acima de três dólares".


É, definitivamente eu conheci outros Jonstones, e é por isso que eu o odeio tanto.

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Este velho não possui ensino superior, não acumulou conhecimento ou sabedoria que lhe credencie a dar conselhos; escreve não porque seja bom escritor ou porque queira, mas porque precisa, porque é o vício mais difícil de largar.

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