• Fernando Fontana

Os Marcianos Também Traem

Segundo Livro da Coleção Casos Supernaturais


Ilustração por Rodrigo Mazer www.facebook.com/rodrigo.mazer.1

Introdução


Com previsão para ser lançado no primeiro semestre deste ano, "Os Marcianos Também Traem" é o segundo livro da Coleção Casos Supernaturais, e segue o detetive Lucca Carrara em mais um caso tendo o absurdo como rotina.


Se no primeiro livro "Procura-se Elvis Vivo ou Morto", ele precisou investigar se o Rei do Rock estava vivo e fazendo compras em um supermercado local, agora ele é contratado para investigar um possível caso de adultério envolvendo marcianos.


Para que os leitores possam ter uma ideia do que se trata a trama, vou disponibilizar aqui as primeiras páginas.


Espero que gostem, para comentários e sugestões, basta enviar um e-mail para o endereço no final do texto.




PRIMEIRO CAPÍTULO

Meu nome é Lucca Carrara, e eu ganho a vida como detetive particular.


Soa mais glamoroso do que realmente é. Por mais de uma vez, eu, literalmente, tive que fuçar no lixo das pessoas, e tenho quase certeza de que o sobretudo amarelo do velho Dick Tracy nunca ficou fedendo à urina e carne podre.


As moscas, as moscas são um saco, eu odeio elas.


O que mais aparece por aqui são casos de adultério, é o carro chefe do meu negócio, é o que paga as contas no final do mês. Deus me livre viver em um mundo cheio de pessoas decentes e que honram as promessas feitas na frente do padre; eu morreria de fome.


Você tem vontade de chorar em casamentos?


Eu também, mas provavelmente por razões bem diferentes.


Duas coisas que eu aprendi neste ramo: dificilmente uma suspeita é só uma suspeita, e, homens são bem menos cuidadosos do que mulheres.


Ambos traem, esqueça esse papo furado de que homem trai porque não presta e mulher porque não recebe carinho, isso é besteira da grossa, conversa fiada inventada por alguma madame que foi pega no flagra com o professor de tênis.


Na maioria das vezes é a mesma coisa, uma mistura de tesão e escrotidão.


Pessoas querem transar, pessoas são escrotas, fim da história.


A diferença é que homens se acham espertos demais; sabe do que estou falando? Um bando de idiotas com o ego inflado até quase explodir, que estão tão ocupados pensando com a cabeça de baixo, que não se importam em ocultar o rastro. Porra, eles nem se tocam que existe um rastro.


Aquele teu amigo que ficou se gabando no vestiário porque traçou a nova secretária é aposta certa, vai acabar se entregando, e a esposa vai arrancar o couro dele no divórcio.


Não que a fidelidade tenha saído de moda, ela nunca esteve, mas também não precisa subir pelas paredes, existem exceções, pontos fora da curva, cabeça de bacalhau, gente honesta, fiel, tenho certeza de que você e sua companheira ou companheiro são assim, almas gêmeas, amor eterno, o pacote todo. Relaxe! Agora, se a cabeça estiver coçando, se é que me entende, para que ficar na dúvida? É só me procurar, o telefone está nas páginas amarelas. Discrição é meu segundo nome, e se houver mais alguém na jogada, eu vou descobrir.

Veja o caso da senhora Alvarez, passando as últimas noites em claro, suspeitando do homem com quem divide a cama há anos, refém da dúvida, imaginando ele trocando carícias com a outra em um quarto de motel barato; veio até mim, olhos marejados, lenço na mão, eu conheço o tipo.


– Meu marido está me traindo, eu tenho certeza.


Ela é jovem, mas o corpo não colabora, alta, nariz aquilino, cabelos negros amarrados em coque, magra, sem peito, sem bunda, sem atrativos, uma tábua.


– Certeza é uma palavra forte – acendo o cigarro e jogo o isqueiro sobre a mesa – já o viu com outra?


– Não, ver, eu nunca vi; acho que perderia a cabeça, mas eu sei, a mulher sempre sabe. O que eu preciso é de provas, de uma confirmação, é por isso que estou aqui.


– Certo, vamos com calma, devem haver razões para a suspeita, algo que lhe chamou a atenção.


– Razões? Muitas, meu Deus, ele nem parece mais a mesma pessoa com quem me casei.


– Leve o tempo que precisar, conte-me os detalhes.


– Posso fumar também?


– Sinta-se à vontade – empurro o maço em sua direção, ela tira um cigarro, eu ofereço fogo, o isqueiro demora a acender, a fumaça toma conta do ambiente, a nicotina clareia minhas ideias.


– Eu havia parado – a mão que segura o cigarro treme de nervosismo – Jurei que nunca mais colocaria um na boca, porque, bom, porque essas coisas matam, mas depois que tudo começou, pensar nele com uma vagabunda qualquer, com aquela...desculpe, eu só quero que isso acabe.


– Uísque para acompanhar?

Ilustração por Wagner Kurts www.facebook.com/wagner.kurts

– Não, não, obrigado. O meu Jorge era a pessoa mais doce do mundo, carinhoso, gentil, simpático, diferente do meu ex-namorado, diferente dos outros caras com quem eu sai, pelo menos era isso que eu achava. Deus, como pude ser tão cega?


– O amor cega; o comportamento dele mudou?


– Muito; ele raramente chegava tarde em casa, nunca foi de frequentar festas ou bares, mas de uns tempos para cá começou a trabalhar até altas horas, pelo menos é o que tem dito, mas é péssimo mentiroso, e eu percebo que tem algo de errado. Semana passada chegou bêbado, trançando os pés, fedendo à cerveja.


– Mudança de comportamento é um indício, mas, por experiência própria, muita coisa pode fazer um cara afundar na bebida; ele pode estar tendo problemas no serviço, daí as horas extras. Tem muita gente desempregada lá fora, muita gente com a corda no pescoço; não estou afirmando que é isso, apenas que é possível, não queremos tirar conclusões precipitadas. Com o que seu marido trabalha?


– É advogado, divide um escritório com o sócio na Avenida Central.


– Advogado, certo – anoto e tento não demonstrar minha antipatia pela profissão – e em que ramo atua?


– Direito penal, com especialização em super-humanos.


– Penal com especialização em super-humanos – apago o cigarro no cinzeiro e me recosto na cadeira – não é exatamente um trabalho entediante. Espera um minuto, Jorge Alvarez, é claro que me lembro dele; conheci na época em que trabalhava no DCS, era capaz de convencer um esquimó que geladeira é item de primeira necessidade.


– É ele, é meu marido.


– Interessante, lembro da vez em que ele soltou um sujeito que eu prendi.


– Isso é um problema?


– Não, claro que não; ele me deixou puto na época, mas acontece que o infeliz era inocente, armaram para o coitado, plantaram as evidências. Eu devia ter percebido, mas estava de cabeça cheia e jurava que o cara tinha culpa no cartório, uma das muitas decisões lamentáveis que tomei na vida.

– Jorge tem essa regra, só aceita defender quem ele acredita ser inocente.


– Bacana, o problema é que ele não é o único bom de papo, se visitar a cadeia vai descobrir que o lugar está coalhado de inocentes; quase não há culpados atrás das grades.


– Não, meu marido é bem criterioso quanto a isso; se houver qualquer dúvida quanto a inocência do cliente, ele abandona o caso na hora.


– Podemos começar por aí, talvez ele esteja enfrentando problemas com algum dos seus clientes, alguém que não gostou de ter seu caso rejeitado. O ramo que ele escolheu é perigoso, ter que lidar o tempo todo com gente que pode te matar com um espirro.


– Você acha que ele pode estar sendo ameaçado?


– Não acho nada, não ainda; além das horas extras e da bebida, mais alguma coisa mudou no comportamento?


– Sim, pequenas coisas, como, por exemplo, o celular, ele nunca colocou senha ou se preocupou com isso, nossa vida sempre foi um livro aberto, mas, agora, não larga do aparelho, e eu notei que ele sai de perto para atender algumas ligações.


– Algo mais?


– Mais? Precisa de mais?


– Só estou tentando fazer meu trabalho.


– Eu não sei, ele parece mais frio, distante, e já faz um tempo que não me procura para, bom, você sabe, não me procura de forma mais íntima.


Aí está, o que foi que eu disse sobre homens? Eis aqui mais um fato, um garanhão que troca a esposa de 40 por duas de 20 dificilmente consegue dar conta do recado, já uma mulher de 40 pode se divertir por horas com dois garotões de 20, isso porque ela não precisa de um tempo para colocar o soldado de prontidão, entendeu? O marido da senhora Alvarez deve estar comendo um belo bife acebolado fora de casa, e não está deixando espaço para o feijão com arroz da patroa, é lógico que ela vai desconfiar.


– Senhora Alvarez, creio que já tenho o suficiente para começar. Vou precisar de uma fotografia do seu marido, algo recente, e que preencha este formulário.

– Formulário?


– Não se preocupe, não é nada demais, informações básicas, endereço de residência, do trabalho, horários, Hobbies, melhores amigos, coisas que ajudam na investigação.


Ela não demora para preencher tudo e me entrega os papéis – aqui – ela diz – eu carrego uma foto nossa na bolsa, é do ano passado, ele não mudou muito desde então, pelo menos não fisicamente.


Eles estão na frente de um circo, ela está segurando um algodão doce e sorri, ele se esforça para mostrar os dentes, não parece a vontade, olhos e cabelos castanhos, baixo, barba, não é galã de novela, a cabeça parece meio desproporcional, calça jeans, camisa gola polo, cores discretas.


– Vejamos – checo as informações – acho que está tudo aqui, quarenta e dois anos, advogado, ensino superior completo, colecionador de selos, sério? O campo local de nascimento ficou em branco.


– Ah sim, o local onde ele nasceu – ela pigarreia antes de continuar, parece ainda mais desconfortável – temos que falar sobre isso.


– Se a senhora não souber, não tem problema, não é algo essencial.


– Não é isso, eu sei, mas o senhor não vai acreditar.


Eu levanto os olhos da papelada – não vou acreditar onde ele nasceu? Difícil – eu sorrio – já vi muita coisa nessa vida.


– O senhor vai achar que eu sou maluca.


– A senhora já deu uma olhada lá fora? – Aponto para a janela – tem gente entortando barras de ferro com os dentes e disparando raios pelo umbigo. Quem não ficou maluco é porque não entendeu o que está acontecendo.


– Marte – ela diz.


– O que tem Marte?


– Foi onde ele nasceu.


– O planeta Marte?


– Sim, sim, mas, por favor, pelo menos deixa eu terminar de falar.

– Entendi - eu abro a gaveta e retiro o velho Jack e um copo, que encho com uma dose generosa de uísque.


– Você vai me mandar embora, não vai? – Ela pergunta com olhos suplicantes.


– Só um instante – respondo com o dedo em riste enquanto entorno metade do conteúdo do copo.


– O senhor acredita em mim? Vai me dar uma chance?


– Dona, honestamente falando – coloco o copo na mesa e acendo outro cigarro – teria que ser muito fodido das ideias para acreditar nessa história.


– Não, mas você disse que o mundo ficou maluco, você disse que...


– Eu pego o caso.


– O que?


– O caso, eu pego.


– O senhor acredita em mim? – Ela move ligeiramente a cabeça para o lado, parecendo confusa.


– Bom, como eu disse, eu já vi um bocado de coisa estranha nessa vida, e marcianos nem seriam a mais absurda delas, ficariam, eu não sei, ficariam no top 5, eu imagino. Ainda assim, vou ter que pedir mais alguns detalhes para ter certeza de que seu marido veio mesmo de Marte, a senhora compreende, não é mesmo?


– O senhor está bêbado?


– Sempre, mas não agora. O Jorge disse que veio de Marte?


– Disse.


– E a senhora simplesmente acreditou?


– Eu confio nele.


Não consigo evitar o sorriso de canto de boca – Veja, a senhora me procurou por que acredita que ele está pulando a cerca, então essa frase meio que não faz sentido. Ele dizer que veio de Marte passa longe de ser uma prova conclusiva.


– Ele tem dois pênis.

– Ok, isso já é algo – pigarreio enquanto tento encontrar as palavras certas – já é algo a ser considerado. Tem certeza disso?


– É claro que tenho, somos casados, não somos?


– Sim, são, então...bem..., mas como vocês...se ele tem dois e a senhora...quero dizer, como vocês fazem para...


– Isso é relevante para sua investigação?


– Tem razão, não, não é. Certo, acho que eu posso...todos os marcianos têm dois pênis?


– Acredito que sim, o único marciano que eu vi nu é o meu marido.


– Claro, claro, mas e se ele for apenas um desses super-humanos, com o poder de ter, você sabe, dois pênis?


– Ter dois pênis não é um superpoder.


– Depende muito do ponto de vista, eu imagino.


– Senhor Carrara, o senhor está só me enrolando ou vai mesmo pegar o caso?


– Não, eu vou, é claro que eu vou, mas eu queria entender, por que a NASA jura de pés juntos que não tem sinal de vida por lá? E por que nunca entraram em contato com a gente?


– A NASA só vai achar um marciano no dia em que um marciano quiser ser achado pela NASA. E se quer saber, muita gente conhece a verdade, ou pelo menos desconfia, como aquele rapaz de cabelo engraçado que aparece no canal de História na TV a cabo, ele sabe das coisas, mas ninguém dá a mínima porque acha que ele é louco.


– E por que eles não querem entrar em contato com a gente?


– Jorge diz que é pelo mesmo motivo que não falamos com o nosso vizinho insuportável, eles simplesmente não querem.


– Eles não vão com a nossa cara?


– Eles monitoram nossas atividades, rádio, TV e internet, e baseado no que tem visto, nos consideram uma das espécies mais violentas e sem sentido que já surgiu nesta galáxia.

– Errados eles não estão, se assistiram à programação da TV aberta nos domingos de tarde, é de surpreender que não tenham varrido a gente do mapa.


– Os marcianos são evoluídos, não fabricam armas ou registram casos de violência há mais de três séculos, só nos visitam por curiosidade científica ou para visitar um local exótico. Foi assim que conheci meu Jorge, ele estava de férias, se apaixonou e decidiu ficar.


– Ok, e ele é o único aqui na Terra ou existem outros?


– Pelo que sei, em nosso país existem outros dois.


– Advogados também?


– Oh, não, um é Youtuber, você sabe, faz vídeos para a internet, e o outro é comediante.


– Puta merda, eu os conheço?


– O Youtuber é famoso, ganha uma fortuna com vídeos na internet, tem um em que ele entra em uma banheira cheia de calda de chocolate e imita um Urso Panda, já viu?


– Ele tem cabelo colorido? Se tiver, acho que eu sei de quem está falando.


– Isso, o público dele é mais infantil mesmo.


– E o comediante?


– Ele se meteu em uma polêmica recentemente, disse que comeria uma atriz grávida e o bebê dela.


– Ah, sim, eu também sei quem é, levou processo por conta da piada.


– O processo é o de menos, o problema é que o consumo de carne humana por alienígenas em trânsito foi proibido há mais ou menos vinte anos, e a piada foi interpretada como um incentivo ao retorno desse hábito. Não entendo muito bem dessas coisas, mas o Jorge disse que quase terminou em deportação.


– Eu gosto dele, acho engraçado.


– Não é bem o meu tipo de humor, mas as pessoas riem; ele é ótimo fazendo piadas sobre nosso modo de vida. Deus fez o universo inteiro só para nós, Jorge diz que ele quase se mija de tanto rir toda vez que lembra disso. Aquela história da Terra Plana, já ouviu falar?

Ilustração por Wagner Kurts www.facebook.com/wagner.kurts

– Já, o que tem ela?


– Foi ele que espalhou o boato, só para ver até onde iria.


– Imagino que poucas pessoas saibam que esse pessoal passeia por aqui, vocês não iam querer Mulder e Scully batendo na sua porta e xeretando sua vida.


– Mulder e Scully? – Ela pergunta, parecendo confusa.


– Esqueça! Estou curioso, você não precisava ter me contado que seu marido veio de Marte, podia ter dito qualquer outro lugar, Rio Branco, no Acre, é quase a mesma coisa. Não faz diferença em uma investigação de adultério.


– Aí é que está, detetive, é importante porque eu acho que ele está me traindo com uma vagabunda de outro planeta. Eu sou terráquea, a família do Jorge não sabe sobre nós, ficariam horrorizados se descobrissem que ele tem um relacionamento comigo. Ele diz que não se importa, que me ama do jeito que sou, mas ouvi ele sussurrar um nome quando estava ao telefone, Safira, você devia investiga-la.


– Safira leva jeito de ser nome de guerra, talvez prostituta.


– Não, ele não desceria tão baixo, e ela não é daqui, não pode ser.


– Mulheres são complicadas em qualquer canto do universo.


– Preciso mesmo ir – ela diz, se levantando – posso contar com seus serviços?


– Claro, por que não? O preço é aquele tratado pelo telefone, com um pequeno adiantamento para despesas iniciais.


Ela paga em dinheiro e sai pela porta, eu me jogo na cadeira, e encho novamente o copo. Como diabos essa gente me acha?


Do que estou falando? Eu sei como me acham; ninguém aceita os malucos e eles vem bater na minha porta.


Na hora rola uma afinidade, eles sentem que somos parecidos.


Uma vez entrei em uma brincadeira com um grupo de amigos da minha esposa, mesa de bar, alguns drinques, conversa fiada, ficaram sabendo que eu era detetive. Uma delas quis saber se eu adivinharia pelo menos três itens que ela carregava na bolsa. Batom, chocolate e Rivotril, acertei os três.


Fiquei em dúvida entre chiclete e chocolate, mas Rivotril era batata.


Continua no Capítulo II

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Fernando Fontana é obviamente o responsável por este blog e autor dos livros "Deus, o Diabo e os Super-heróis no País da Corrupção", "Procura-se Elvis Vivo ou Morto" e da Graphic Novel "O Triste Destino da Namorada do Ultra-Homem".


Também é colunista do Canal Metalinguagem onde escreve sobre cinema e quadrinhos.


Para contato, escreva para: fernandofontana040@gmail.com

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