• Fernando Fontana

Um Pequeno Assassinato

"Uma história sobre os pequenos homicídios que por vezes cometemos para seguir em frente"


**** Spoilers no Texto ****

Quando ouvimos falar o nome Alan Moore normalmente nos lembramos dos clássicos, seus quadrinhos de maior sucesso, V de Vingança, Watchmen, Monstro do Pântano, entre outros, mas no início da década de 90, o escritor se juntou ao ilustrador Oscar Zárate para produzir sua primeira Graphic Novel sem a presença dos super-heróis.


Trata-se da história de Timothy Hole, publicitário que recebe a incumbência de produzir uma campanha para uma marca de refrigerantes na Rússia, mercado recém aberto após a queda do muro de Berlim e o esfacelamento da União Soviética, e que vem sofrendo de bloqueio criativo.


A pressão sobre Timothy é ainda maior, pois ele já falhou em uma campanha para a Pepsi no Japão, sendo esta sua segunda chance.


Em Mad Men, premiada série que mostra o dia a dia de publicitários em Nova York na década de 60, o protagonista Don Draper deixa claro que propaganda não é sobre vender coisas: "A propaganda se baseia em uma coisa só; felicidade".


É a ideia de que adquirir aquele determinado produto lhe fará mais feliz, seja ela um carro novo, uma televisão maior ou uma lata de refrigerante. Paradoxalmente, o produto em questão não pode lhe deixar feliz por tempo demais, caso contrário, você não irá querer trocá-lo, e as engrenagens do sistema irão emperrar.


Temos aqui uma das premissas de "Um Pequeno Assassinato", Timothy Hole, responsável por vender felicidade, nitidamente não está feliz.

Talvez por isso, por se encontrar infeliz e não conseguir encontrar uma boa ideia para a nova campanha, ele decida fazer uma viagem para Sheffield, sua cidade natal.


Acompanhamos a jornada de Timothy, não apenas até Sheffield, mas também ao seu passado, onde pode residir a chave de sua infelicidade.


Durante o trajeto, seja a pé, no avião ou no trem, o publicitário percebe uma presença incômoda, um garoto que o persegue, se perdendo na multidão, quando identificado.


O que, no início parecia uma suspeita, se transforma em medo e paranoia. Quem é este garoto? O que ele quer? É um plano da concorrência para me enlouquecer?


O leitor não terá dificuldades para desvendar quem é o menino, mas isso pouco importa, ao contrário dos filmes de M. Night Shyamalan, não há a preocupação de surpreender com uma grande reviravolta, mas sim de mostrar as escolhas que guiaram Timothy até o momento atual, os erros que cometeu e as pessoas que magoou para atingir seu objetivo.


Tornar-se um publicitário rico e famoso era mesmo o seu objetivo ou ele se deixou levar pelo que a sociedade considera uma trajetória de sucesso?

O garoto não é a única metáfora presente na obra, temos também o pote enterrado com insetos vivos.


Também temos a tendência de olhar para nós mesmos como boas pessoas, temos nossas falhas, mas dificilmente diríamos para um desconhecido ou mesmo uma pessoa íntima: "eu sou uma pessoa má".


Não basta ter sucesso, é necessário ser, ou, pelo menos aparentar ser uma pessoa com virtudes que superam os defeitos.


Timothy enterra seus piores atos bem fundo em sua memória, mentindo não apenas para as pessoas ao seu redor, mas para si mesmo.


Talvez hoje possa ser considerado um roteiro previsível; no cinema já tivemos mais de um filme com a mesma abordagem, mas vale lembrar que Moore o escreveu em 1991, e ainda hoje cumpre sua função de nos fazer refletir sobre o rumo que escolhemos para nossas vidas.


Embora pareça um trabalho autobiográfico de Moore, a ideia original foi do argentino Oscar Zárate, cujo trabalho já era admirado por ele. Após Watchmen, o escritor queria inovar, sair do ambiente dos super-heróis, e após encontrar Zárate em uma festa e conversarem por um tempo, surgiu a oportunidade de trabalharem juntos no projeto.


A arte do argentino é belíssima, lembra uma pintura, diferente da que estamos habituados a ver nos quadrinhos, e casa perfeitamente com a proposta da história.


O encadernado "Um Pequeno Assassinato" foi publicado pela editora Pipoca e Nanquim, e é uma excelente oportunidade de descansar um pouco das lutas de super-heróis contra vilões dispostos a conquistar o mundo.


O vilão aqui é muito mais real.

---------------------------------------------------------

Fernando Fontana é obviamente o responsável por este blog e autor dos livros "Deus, o Diabo e os Super-heróis no País da Corrupção", "Procura-se Elvis Vivo ou Morto" e da Graphic Novel "O Triste Destino da Namorada do Ultra-Homem".


Também é colunista do Canal Metalinguagem onde escreve sobre cinema e quadrinhos.


Para contato, escreva para: fernandofontana040@gmail.com



10 visualizações

Facebook

  • Facebook Social Icon

© 2019 por FERNANDO FONTANA Orgulhosamente criado com Wix.com

This site was designed with the
.com
website builder. Create your website today.
Start Now